Thais Trulio vai estudar na ESNAM (École Superieure des Arts de la Marionnette) em Charleville-Mézières, ela será a terceira brasileira a estudar lá. VENHA PARA A FESTA !!! Vai ter exposição / leilão de bonecos e gente bonita. Quer mais? Eu vou ! Onde? Aqui !!! - NPC-Artes - Av. Lins de Vasconcelos, 873 - Cambucí - São Paulo - SP Quando? Dia 28 de Agosto às 20.00H Quanto Custa? Nada... A entrada é FRANCA !
São 20 vagas, para o mundo todo, de três em três anos. Ela passou. Ela fez isso sozinha. Daí agora precisa de fundos para a passagem. Vai para a França, a Bixinha. Eu vou ajudar, a Cris e o Dinho também. Não fique fora dessa !!
Vamos lá se encontrar, ajudar Thais Trulio, rir no banheiro, etc !




Re-estréia dia 07 de Agosto de 2010
Espetáculo criado a partir das pesquisas da Cia npc-artes,
inspirado no Teatro de Tadeusz Kantor.
Espetáculo
Personagens ambíguos, interrompidos por fragmentos de memória, e objetos que perderam sua função no mundo aparente, constroem o espetáculo em uma composição de cenas desconexas e desarticuladas.
Talvez não interpretem nenhum drama e mesmo que estejam tentando criar algo, não é muito importante diante do que está sendo apresentado. Lembramos então, do grande vazio e da fronteira além do abismo, que está lá, olhando para nós.
Elenco: David Assis, Deborah Furquim, Edmilson Alves, Juliana Terra, Márcio Campos
Cenário, figurinos e trilha sonora: Alberto Santos
Fones:(011) 2533-7399 (011) 9717-9696
Re-estréia: 07 de Agosto de 2010 às 21:00 hs -Temporada até 20/11/2010
Sábados as 21 horas e domingos 20:00hs
Faixa etária recomendada: acima de 12 anos
Ingresso: (Com desconto de 50% para reservas por telefone, terceira idade, estudantes e classe teatral)
Histórico de espetáculos do NPC-Artes
Produções teatrais
Alguns destaques: Tirando o pé da lama, com temporada no Teatro Ruth Escobar em 1997; Kafka, o julgamento, com temporada no Teatro Ruth Escobar em 1998; Fred & Jack, com temporadas no Teatro Ruth Escobar e Teatro Nelson Rodrigues, em 1996 e 2002, respectivamente; e O padre, o anjo e o capeta, no Teatro Brasileiro de Comédia, em 1998. Todas as peças foram escritas e dirigidas por Alberto Santos, à exceção desta última que contou com direção de Edson D’Santana.
Produções premiadas em dança,
Espaço Vazado de Deborah Furquim e Ángela Nolf – Prêmio Estímulo à Dança do Centro Cultural São Paulo – Prefeitura do Município de São Paulo - 2002; Prêmio APCA – 2003.
2 por1 de Deborah Furquim e Ángela Nolf –Projeto contemplado para circulação em dança- PMSP – 2004
O ESPETÁCULO
O ator caracterizado com chapéu borsalino, calças, sapatos e capa preta entra na primeira cena, abre a porta deixando entrar um conjunto de outros seres. O fim de um quadro e a criação de outro, sem nexo causal.
E o ato de conduzir e introduzir outros atores pode fazer parte das tarefas desempenhadas por essa figura: a de evocar, de trazer para a cena uma imagem-ritual. Imagens que se repetem sem conflito e resolução, que são elementos dramáticos.
Cada nova cena será completamente independente em relação àquela que a precede como também em relação a que a sucede. Ocorre, então, que o conjunto, ou todo, passa a variar infinitamente em vez de configurar-se como um todo fechado. A sucessão, assim organizada, é um todo aberto e não leva a um desenvolvimento dramático, antes desrealiza personagens e produz cortes a-significantes no fluxo material e expressivo da criação.
O ritmo e o tempo ainda constituem uma via de precisão. Os gestos e as ações dos performadores são construídos com precisão corporal. Ao contrário do que pode parecer no caos que sempre se instala na cena, nenhum gesto é feito com base na emoção ou no sentimento. Há uma coreografia de gestos e movimentos musicalmente precisa. Porém, não como uma contagem imposta, mas na modalidade de um cálculo do performer sobre o seu próprio jogo.
Em uma qualquer parte, em lugares estreitos, projetam algumas portas de madeira...é possível distinguir uma espécie de gaiola construida com partes de janelas, encostado em uma parede do fundo, em outra extremidade, um móvel que lembra uma cadeira e ao mesmo tempo um caixão funerário; observam também outros objetos de madeira e ferro, construidos a partir de outros objetos que perderam sua função original e foram deixados de lado, descartados por sua insignificância prática. Neste contexto adquiriram uma nova função, concebida com o surgimento da subjetividade dos artistas, ou da tensão mais ou menos dialética entre uma materialidade inerte e as leis formais de estruturação da obra. O que é relevante em ambos os casos é o abismo entre a matéria morta de antes e o resultado subsequente.
As criaturas deste Demonstrativo Para Simples Conferência são indivíduos ambíguos. Como se tivessem sido interrompidos e depois continuados com os vários fragmentos das memórias de um criador e dos próprios atores... Lembranças de momentos experimentados na vida passada (real de superfície ou imaginária), sonhos e paixões, continuam desconexos e desencontrados, transformando-se num movimento para um fio condutor sem trégua, em direção a própria forma final, que se esfria e se aquece em movimentos rápidos, médios ou lentos, caminhando para o inusitado. Os preparativos finais para o jogo com o nada. Posto no palco com os atores, nessa jogada.
EXPRESSANDO A CONCEPÇÃO DAS COISAS
Por:Alberto Santos
O espetáculo dá à Cia npc-artes, possibilidade de expressar a concepção que tem das coisas, através de procedimentos que não podem ser ditos de outra forma. Significados e estados mentais novos, muitas vezes múltiplos, resultaram nas obras que são, sua própria afirmação. A apreciação estética é condicionada pela cultura, que de tão diversificada torna impossível reduzi-las a qualquer conjunto de preceitos.
Uma simples rachadura na parede, na qual concentramos nosso olhar, pode começar a adquirir a forma de um objeto qualquer ou de um animal. Nossa imaginação acrescenta os traços que antes não se encontravam ali. As cenas e os personagens dos espetáculos mencionados seguem essa linha de pensamento desarticuladas e desconexos se complementam com a imaginação do espectador presente, dependendo do conhecimento individual, as imagens adquirem significados diferentes, para pessoas diferentes, na mesma cena.
O processo criativo, foi precedido por dois anos de preparação, nos quais, o grupo organizou seminários sobre teatro, (Heinrich von Kleist, Maeterlinck, Gordon Craig, Vsevolod Meyerhold, Antonin Artaud, Samuel Beckett, Peter Brook, Bob Wilson, Hainer Muller e Tadeusz Kantor), filosófia, (Epicuro, Sócrates, Schopenhauer, Frederich Nietszche, Jeans Paul Sartre, Gilles Deleuze, Henri Bergson, Cioram e Jean Baudrillard) e psicologia, (Freud, Lacan e Skinner), o que serviu de suporte ao desenvolvimento do espetáculo.
O trabalho mais difícil foi feito sem a descoberta da chave imediata para a solução dos problemas. Ao atingir o ponto crítico, a imaginação estabelecia relações entre partes aparentemente desconexas e em seguida as recombinava, culminando com uma longa série de saltos imaginativos.
No transcorrer do processo o grupo nunca sabia muito bem o que estava fazendo até momento em que o tinha realmente feito; ou, para dizê-lo de outro modo, um jogo de buscas e descobertas em que aquele que busca não sabe muito bem o que está procurando, até que finalmente o descubra.
Enquanto no teatro convencional os atores sempre tentam fazer aquilo que sabem ser possível, no caso do grupo, os intérpretes estavam sempre tentado a pretender o impossível — ou, pelo menos, o improvável ou inimaginável.
TEATRO DE TADEUSZ KANTOR
(extracto del artículo publicado en Cuadernos El Público nº 11, 1986)
"Teatro Informal (1961), Kantor explorou a matéria (Um aspecto desconhecido da REALIDADE ou do seu estado elementar), que não precisa obedecer às leis da realidade, está sempre mudando e fluindo; escapa da escravidão das definições racionais, faz todas as tentativas para comprimi-lo em uma forma sólida ridícula, desnecessária e vã; é destruidora eterna de todas as formas, e nada mais que uma manifestação, é acessível apenas pelas forças de destruição, vontade e risco da COINCIDÊNCIA, e por uma ação rápida e violenta.
No "Teatro Zero" (1963) Kantor lidou com objetos marginalizados e emoções para desmembrar o desenvolvimento da trama lógica, construindo cenas por referência textual para revelar a individualidade de um ator, descartando a ilusão: a técnica tradicional de desenvolver trama, fez uso da vida humana como um trampolim para se impulsionar em direção ao reino das paixões crescentes e intensas do heroísmo, do conflito e das reações violentas. Quando surgiu pela primeira vez, essa idéia de "crescer" significou a expansão trágica do homem, ou uma batalha heróica para transcender as dimensões humanas e seus destinos. Com o passar do tempo, se transformou em um mero show, exigindo potentes elementos de espetáculo e a aceitação da ilusão violenta e irresponsável - figuras convincentes e uma procriação impensada de formas.
"O Teatro da Morte"(1975) significou uma mudança nas pesquisas de Kantor. As produções que se seguiram exploraram as noções de memória, história, mito, criação artística, e a função do artista como cronista do século XX: A Classe Morta (1975: a exploração de memórias acontecia num espaço ante uma barreira intransponível); Wielopole, Wielopole (1980: introdução da idéia de espaço da memória); Que Morram os Artistas (1985: introdução à teoria de negativos que modificaram a noção de espaço da memória-agora, era denominado depósito de memória, ou seja, um lugar onde lembranças são sobrepostas umas às outras); Aqui Não Volto Mais (1988; introdução da idéia de pousada da memória, que existia além dos confins do tempo e espaço, onde Kantor encontrou suas próprias criações passadas); e Hoje é Meu Aniversário (1990: exploração do ultrapassar o limiar entre o mundo da Ilusão e o mundo da realidade que provocou a desintegração da própria ilusão. (...).
(...) Para ele o ator é um artista mais sensível porque é um pouco exibicionista. Portanto, possui as características de um morto. Atrai e repele. Ademais, como um morto é verossímil para os demais, para os espectadores. Por isso, na obra, Kantor odeia os trajes e o papel, porque são camuflagens, proteção. Ali deve estar o homem. Verossímil para os espectadores. E deve estar “morto”, separado para sempre, de modo inimaginável, para o público. Por isso criou um método de interpretação de atores, onde eles fossem capazes de criar uma barreira invisível, como a que existe entre os mortos e os vivos. É tudo.
(...) O morto mostrado no caixão é, de certo modo uma coisa de circo: se estivesse vivo, provavelmente se envergonharia de ser exposto em público. Este momento de vergonha é a característica do seu modelo para o ator.
Tradução e adaptação de Alberto Santos
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Crônica de Segunda
cronicaseg.blogspot.com
O PONTO
A edificação possui paredes altas e grossas, como as de um antigo templo cristão. Similar a uma residência senhorial fortificada, com muralhas e barbacans .
A família encontra-se reunida o que parece ser o irmão mais velho comenta algo com os outros. A janela está embaçada não é possível identificar o que esta acontecendo lá dentro.
Passo para um lugar onde manufaturam-se utensílios, gêneros, roupas, máquinas e várias outras mercadorias. Homens espalhados em volta, do que parece ser o engenho, o templo do mecanismo.
Alguma coisa está sendo arquitetada no comando central. O Conselheiro entra às pressas, em seguida, os outros. Todos que estavam dentro do pavimento olham pasmos.
Após a apresentação ao conselheiro, percebo os outros homens que me observam como autômatos. Uma imagem de revolta, ódio e decepção se estampa no rosto do senhor da organização. Tenho a nítida impressão que ele me acusa de algum crime inominável.
Uso de todos o sentidos para argumentação da minha defesa, mas ele demonstra total falta do impulso fundamental inerente aos seres vivos, que se manifesta na aspiração sempre crescente de maior poder de dominação, não compreende os meus argumentos.
Sigo gesticulando, acredito ter solucionado o equívoco pois, com certeza não havia culpa que me pudessem imputar. Os outros homens me observam. Um deles, furioso, dispara em minha direção; amparado pelos outros, parece enlouquecido.
Uma sensação horripilante de medo toma conta de mim, paralisando meus braços, tórax e cabeça. Com esforço corro em direção a uma saída. Carrego a certeza que eles queriam a minha morte.
Saio por uma escadaria que dá acesso ao lado de fora, Um homem segura meus braços. Consigo libertar-me e continuo correndo. Meu corpo está nu. Já do lado de fora do prédio. Um sentimento de vergonha e de mal estar atormenta meus pensamentos, por ferir a decência e a moral dos bons costumes com mimha nudez.
Dentre tantos inimigos, um deles parece querer ajudar-me. Improviso uma roupa com um tecido que ele me entrega. Nos arbustos, cansado adormeço. Duas criaturas aconselham-me a seguir. Corro por um caminho totalmente desconhecido.
Deparo-me com escombros metálicos de carros e carruagens sobrepostos em forma de pirâmide. Quem seriam aquelas pessoas . Poderiam estar entre os que queriam a minha morte.
Em rota de fuga não me resta outra alternativa a não ser escalar. O lugar é propicio para o meu funeral. Não deixa de ser um cemitério. No topo da pirâmide... uma súbita queda.
No que parece ser o jardim de um palácio real surge novamente a familia. Um a um, os membros são eliminados sem esboçarem nenhuma reação. Todas as armas que possuem são ineficazes para mante-los vivos. Assisto a chacina, minha impotência e maior do que a minha indignação. Não consigo entender o que está acontecendo.
Surpreendentemente meu corpo é deslocado para um outro espaço; uma banda aparece tocam compassadamente, alguma música indecifrável e inaudível. Uma bailarina ensaia gestos e passos de dança. O mestre de cerimônias faz um discurso, em seguida cruza um braço sobre o outro em um gesto obsceno.
ALBERTO SANTOS É DIRETOR DE TEATRO, ATOR E JORNALISTA . SAIBA MAIS SOBRE OS TRABALHOS DESENVOLVIDOS PELA CIA DE TEATRO NPC-ARTES ACOMPANHANDO AS INFORMAÇÕES PUBLICADAS NESTE BLOG. |
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(extracto del artículo publicado en Cuadernos El Público nº 11, 1986)
Tradução e adaptação de Alberto Santos
"Teatro Informal1(1961), Kantor explorou a matéria (Um aspecto desconhecido da REALIDADE ou do seu estado elementar), que não precisa obedecer às leis da realidade, está sempre mudando e fluindo; escapa da escravidão das definições racionais, faz todas as tentativas para comprimi-lo em uma forma sólida ridícula, desnecessária e vã; é destruidora perene de todas as formas, e nada mais que uma manifestação, é acessível apenas pelas forças de destruição, vontade e risco da COINCIDÊNCIA, e por uma ação rápida e violenta.
No "Teatro Zero" (1963) Kantor lidou com objetos marginalizados e emoções para desmembrar o desenvolvimento da trama lógica, construindo cenas por referência textual para revelar a individualidade de um ator descartando a ilusão: A técnica tradicional de desenvolver trama fez uso da vida humana como um trampolim para se impulsionar em direção ao reino das paixões crescentes e intensas do heroísmo, do conflito e das reações violentas. Quando surgiu pela primeira vez, essa idéia de "crescer" significou a expansão trágica do homem, ou uma batalha heróica para transcender as dimensões humanas e seus destinos. Com o passar do tempo, se transformou em um mero show, exigindo potentes elementos de espetáculo e a aceitação da ilusão violenta e irresponsável - figuras convincentes e uma procriação impensada de formas.
"O Teatro da Morte"(1975) significou uma mudança nas pesquisas de Kantor. As produções, que seguiram, exploraram as noções de memória, história, mito, criação artística, e a função do artista como cronista do século XX: A Classe Morta (1975: a exploração de memórias acontecia num espaço ante uma barreira intransponível); Wielopole, Wielopole (1980: introdução da idéia de espaço da memória); Que Morram os Artistas (1985: introdução à teoria de negativos que modificaram a noção de espaço da memória-agora, era denominado depósito de memória, ou seja, um lugar onde lembranças são sobrepostas umas às outras); Aqui Não Volto Mais (1988; introdução da idéia de pousada da memória, que existia além dos confins do tempo e espaço, onde Kantor encontrou suas próprias criações passadas); e Hoje é Meu Aniversário (1990: exploração do ultrapassar o limiar entre o mundo da Ilusão e o mundo da realidade que provocou a desintegração da própria ilusão
Sobre o Teatro Informal, o Teatro Zero, e Teatro da Morte, em depoimento o teatrólogo Polonês afirma a existência de laços entre essas fases do seu teatro. Muitos críticos pensavam que Tadeusz Kantor havia mudado totalmente, entre o Teatro Zero e O Teatro da Morte, mas ele afirmou que essa não era a verdade, há um nexo, que começou a ser visível depois de muitos anos. Quando fazia o Teatro Zero, Tadeusz Kantor pensava que não tinha nada a ver com o Teatro Informal; mas quando fez o Teatro da Morte, descobriu uma continuidade do Teatro Zero do ano de 1963. Porque o Teatro Zero era nada, Kantor anulava todas as tendências dos atores e todas as tendências da vida. Afirmava ele” ...encontramos muitos estados psíquicos que estão por baixo da existência, por exemplo. Os estados patológicos, os estados de enfermidade mental, às vezes, a esclerose”. Em “O louco e a Monja” o ator que começava a falar, na primeira cena, pronunciava algumas palavras, olhava o público e ficava completamente decepcionado e não queria seguir atuando. Então saía e alguém ia buscá-lo e tudo se repetia novamente: olhava, dizia o que sabia ao público. Logo estava lá, a máquina formada por cadeiras, que destruía toda possibilidade que havia de vida aos atores. Quando começava a atuar, a maquina começava a mover-se de pronto, jogando-os fora, era realmente uma força terrível. No havia espaço para atuar, todo espaço estava ocupado por essa estúpida máquina. O espetáculo foi representamos poucas vezes, logo proibiram porque críticos escreveram que era a imagem da realidade vivida na Polônia, da burocracia, o terror, todas essas coisas.
Não havia espaços os atores tinham que lutar para encontrar um lugar na vida, pois de imediato eram jogados fora pela máquina. Então voltavam novamente, e uma vez o espetáculo durou três horas, enquanto que a obra completa devia durar meia hora. Éra o circo, sempre o circo, não a filosofia seria, porque o teatro é o teatro.Assim havia pessoas que dialogavam, falavam algumas frases. Logo chegavam outras pessoas em um guarda roupa, personagens que eram como espiões, policiais, idiotas, imbecis, os que não entediam nada; colocavam-se sempre entre os atores que dialogavam, um ator pronunciava uma frase, fazia uma pergunta; um destes senhores que eram como intermediários, completamente estúpidos, repetia, porém sem compreender passava a pergunta a outro, seu colega: o colega era alguém mais tonto não entendia nada , e dizia essa frase de modo automático a um segundo ator que não entendia nada de nada, porque a pergunta havia se deformado em seu todo
Era a deformação das informações, o canal se quebrava pela estupidez. Durava um bom tempo, havia momentos muito cômicos e muito teatrais, adequados a interpretação dos atores. Este era o Teatro Zero, no sentido cientificamente profundo, senão em um sentido puramente teatral.
Acreditava Kantor ser este o resultado e o efeito do Teatro Zero e do Teatro Informal. Porque o Teatro Informal é a matéria decomposta.
Procurava encontrar sua posição na situação universal da arte de atuar. Sempre estava a favor da vanguarda, sentia-se a vanguarda, sentia-se, mas pensava que a vanguarda daqueles anos (até 1990) era universal, como diz no manifesto do Teatro da Morte, um levantamento em massa, é “ mobilização universal da mediocridade” . Todos querem estar na vanguarda é isso é impossível. Todos os Teatros são vanguarda, da quase vergonha ser tradicional. Mas o quanto é fascinante ser tradicional, no sentido clássico de tradicional, de tradicional formal. Como diz no manifesto" o caminho da vanguarda se converteu em um autopista muito congestionada, muito cômoda, institutos , informações, centro de artes, de Beaubourg a Guggenheim. Então para ele se existe volta é impossível continuar. Procurava encontrar um pequeno caminho, um pouco lateral, um pouco a margem, para continuar, para não se chatear. A noção de morte é o último argumento para o conformismo. Porque considerava que na vanguarda atual e conformista: em seu país estava a vanguarda do Estado, o estado utiliza a vanguarda como proteção para seu liberalismo. Não se tratava de arte, não existia nada autentico, os academicismo, conformismo, desde o momento em que ser vanguardista propiciava a possibilidade de uma boa carreira. A noção de morte não era uma obsessão, estava contra a obsessão , como explicação da própria atividade, porque resultava demasiada fácil. Ou se era uma obsessão não concernia tão somente a ele: isso se dirá depois. Mas para ele a noção de morte é completamente formal, o modelo para o ator é o morto. O homem morto possui as mesmas carcateristicas que deve ter o ator. O cadáver chama a atenção de toda a gente, e também a faz repudiá-lo: o mesmo deve ocorrer com ator. Deve atrair e rechaçar. O artista deve despojar-se do prestigio oficial, do prestigio social, deve estar só: e dizer, quero ser só ator. Para ele o ator é um artista mais sensível porque é um pouco exibicionista. Por tanto possui as características de um morto. Atrai e repele. Ademais como um morto é verossímil para os demais, para os espectadores. Por isso na obra, Kantor odeia os trajes, e o papel, porque são camuflagens, proteção. Ali deve estar o homem. Verossímil para os espectadores. E deve estar “morto” deve estar separado para sempre, de modo inimaginável, para os espectadores. Por isso cria um método de interpretação de atores, onde eles fossem capazes de criar uma barreira invisível, como há que existe entre os mortos e os vivos. É tudo. Trabalhava muito neste problema: que se poderia fazer para que não o detestassem: queria que o público se envergonhasse deles. O morto mostrado no caixão é, de certo modo uma coisa de circo: se estivesse vivo, provavelmente se envergonharia de ser exposto em público. Este momento de vergonha é a característica do seu modelo para o ator.
OS CLICHÊS DA MEMÓRIA
Em nosso arquivo da memória existem “fichários”, clichês registrados por nossos sentidos. Se tratar, em geral, de detalhes que aparentemente carecem de importância, pobres restos, fragmentos...IMÓVEIS E o que resulta mais importante, TRANSPARENTES como os negativos fotográficos. Que se pode sobrepor Por isso não há que assombrasse se, por exemplo, os acontecimentos do passado se adiram aos do presente, que se mesclem com os personagens, que tenhamos sérios problemas com a historia, a moral, as convenções. As ondas da memória, tranqüilas e claras, se agitam bruscamente e os elementos se desencadeiam. E o INFERNO. Na câmara da imaginação e da memória vivem PERSONAGENS HUMANOS. Não, seria melhor dizer que foram “depositados” ali. Seria muito mais simples dizer que estão mortos, que não pertencem a nossa vida diária. Tratam desesperadamente de reconstruir, com sua memória esfumaçada aquilo que foi sua vida, sua felicidade o sua miséria. Só lhes restam palavras inúteis, ladainhas recitadas sem fim e sem esperança. Deve haver um grande caminho para chegar ao fim, esgotados neste Albergue da Memória. Não são capazes de reconstruir uma determinada ação. São como ruínas de acontecimentos passados. Hoje, nesta pobre Câmara da Imaginação, se encontram com as CRUZES de um CEMENTERIO do povo, como se hoje estivesse buscando outros segredos com os antigos, os mais distantes. O HUMOR ZOMBATEIRO E A IRONÍA NÃO ME DEIXAM. Com um gesto de humor negro, com un a gargalhada de bufão, me sirvo das mistificações do circo, dos procedimentos suspeitos da vilania. Para conseguir a paz, posso conseguir a paz, posso inclusive chamar esta habitaçãoDE DEPÓSITO DE CADÁVERES DO CEMENTERIO ou, senão, O ALBERGUE DA MEMORIA. Eis o contrato, incluído, um lúgubre proprietário para este local. Antes que as recordações das imagens desta cena desapareçam para sempre, antes que este pobre Pierrot se afaste para não voltar, quero expressar algo que, quem sabe poderá definir de maneira mais profunda e sincera minha aproximação com o teatro. Ainda que no curso dos diferentes períodos que se sucederam as distintas "etapas" e "paradas" do meu caminho, havia escrito sobre pedras milenares o nome dos lugares: Teatro Informal, Teatro Zero, Teatro Impossível, Teatro da Realidade Degradada, Teatro Viaje, Teatro da Morte, em algum lugar, em último plano, sempre estava a mesma BARRACA DE FEIRA. Todos estes nomes intentam somente protegê-la da estabilização oficial e acadêmica. No fundo eram como os títulos dos largos capítulos em que saia vencedor dos perigos nesta via que conduz sempre ao DESCONHECIDO e ao IMPOSSIVEL. Durante quase meio século a pobre Barraca de Feira, sepultada no esquecimento, havia permanecido oculta detrás das ideas puristas, as revoluções do construtivismo, as manifestações surrealistas, a metafísica da arte abstrata, os "happenings", as ambientações surrealistas, os teatros abertos, conceituais, os antiteatros as grandes batalhas, as grandes esperanças, as grandes ilusões e, ao mesmo tempo, as catástrofes, as decepções, as piruetas pseudocientíficas. Depois de tantos conflitos e ao iniciar tantas etapas, hoje vejo com bastante clareza o caminho percorrido e compreendo, porque havia rechaçado sempre com tanta obstinação o status oficial e institucional. Talvez porque havia rechaçado por mim e pelo meu teatro, os privilégios e as condições que correspondem com essa posição social. Porque meu teatro foi sempre uma verdadeira Barraca de Feira: O verdadeiro teatro da emoção.
AS EXPLICAÇÕES DE KANTOR PARA O SEU ESPETÁCULO “A CLASSE MORTA”
UMA SALA ESCOLÁSTICA
Do último canto escondido da memória, de uma qualquer parte em um canto estreito, se projetam algumas filas de BANCOS de escola pobres, de madeira...LIVROS envelhecidos se desintegram em pó...Em dois CANTOS, se sela a recordações de punições de um passado distante, como modelos geométricos desenhados com o giz na lousa...O W.C. da escola, onde se experimentou pela primeira vez o gosto do proibido...Os alunos, velhos infantis na beira da tumba, e os assentos... levantam a mão no gesto que todos conhecem, e assim permanecem... como se pedissem alguma coisa, qualquer coisa de decisivo... saem... a sala se esvazia...e improvisadamente retornam todos... se inicia o último jogo da ilusão...a grande entrée dos atores...levam todos pequenas crianças , como pequenos cadáveres...Alguns destes balançam inertes agarrando-se com um desesperado movimento, prendendo-se, arrastando-se, como se fossem o remorso da consciência, rastejando aos pés dos atores, como se este rastejassem nestes exemplares em que se transformaram.. criaturas humanas que exibem despudoradamente os segredos do próprio passado, com as EXCRESCÊNCIAS da própria INFÂNCIA...
PERSONAGENS DE “A CLASSE MORTA”
Uma MULHER DA LIMPEZA – uma megera primitiva, não faz outro que executar sem parar as próprias tarefas. A sua futilidade na situação em andamento de desintegração da CLASSE MORTA tem uma força de sugestão ofuscante, quase de circo, que faz referimento ao caráter transitório das coisas. As suas ínfimas funções se deslocam dos objetos às pessoas e esta não equivocada lavagem dos corpos revela o território mais remoto da MULHER DA LIMPEZA – A MORTE.A sua transformação final em uma horrenda dona de bordel funde as idéias mais distantes em uma certa reconciliação sem compromissos, mas humana: morte – vergonha – circo – putrefação – sexo – mistificação – imundície – degradação – desintegração – pathos – o absoluto...A serva lê as “últimas notícias”... 1914 ...a explosão da primeira GUERRA MUNDIAL...O assassinato do príncipe da Áustria em Sarajevo... o bedel canta o hino nacional austríaco “Oh Deus, protege o nosso Imperador...” (Na região da Polônia ocupada pela Áustria, a figura do nosso monarca albsburgo graciosamente reinante era um símbolo revestido pelo fascínio da juventude das nossas avós e uma ironia a este magnífico fantoche).Um BEDEL – uma pessoa do “escalão inferior”, inseparável da sala de aula, onde transitou toda a melancolia dos velhos tempos – “perfeito”, já que continuará ali sentado para sempre – e os seus suspeitos retornos à vida são ainda outros esforços feitos em aula. Não se deveria levá-lo a sério...Uma MULHER ATRÁS DA JANELA. A janela é um objeto extraordinário que nos separa do mundo “que está da outra parte”, do “desconhecido”... da Morte... O vulto atrás da janela – quer comunicar alguma coisa com urgência, quer ver alguma coisa a qualquer preço; com um senso de total desespero ela observa cada coisa que está acontecendo em sua volta, e o seu comentário ininterrupto se torna sempre mais malicioso e envenenado; transforma-se em uma Fúria e os seus líricos encorajamentos a um picnic de primavera terminam no frenesi do terror e da morte.Um VELHO DO W.C. – se senta na privada da escola como antes, neste lugar especial onde a solidão ressentia a liberdade... si senta em modo indecente com as pernas abertas, imerso em tarefas intermináveis (talvez fosse um balconista de bar em uma pequena cidade do interior)... Calejado da dor e da ira conduz os seus desafios, não claramente definidos, com o seu Deus... sobre este escandaloso Monte Sinai...Um VELHO COM BICICLETA, que não quer separar-se da sua bicicletinha, um piedoso brinquedo todo estragado da sua infância... Realiza continuamente essa ronda noturno, só que o lugar se restringe singularmente à classe, entre os bancos... e não é ele que se senta neste veículo bizarro, mas uma criança morta com os braços escancarados... Tudo isso acontece durante a LIÇÃO NOTURNA e em um SONHO...Uma PROSTITUTA-SONÂMBULA – quando ainda estava na escola cometeu excessos famigerados... Fingia ser a modelo de uma vitrine, um manequim que estava freqüentemente nu em público... não se sabe se depois os seus sonhos foram realizados... Ora, neste SONHO DA CLASSE MORTA, ela realiza o seu giro indecente entre os bancos repetindo o gesto obsceno de mostrar os seios...Um ALUNO QUE NÃO CONSEGUIU LEVANTAR-SE – Um DISTRIBUIDOR DE ANÚNCIOS MORTUÁRIOS – um escolar manco e infeliz, ignorado por todos, sadicamente maltratado pelos companheiros, talvez obrigado a servi-lhes, talvez usado para carregar os livros ou as malas dos companheiros... Em sonho, ligado à criança por uma corda, repete obstinadamente uma lição de GRAMÁTICA... expõe a lição, não pedida por ninguém, diante de uma classe absolutamente indiferente e agitada... em seguida revela sua notória complacência, levando em giro, e distribuindo ao companheiros, os anúncios mortuários de alguns entre eles...Uma MULHER COM O BERÇO MECÂNICO – As “brincadeiras” de escola – aqueles incidentes angustiantes e dolorosamente “desnudados”, “implumi”, “foruncolosi”, desprezados no silêncio embaraçoso, mas reconhecidos pelos adultos como formas inferiores de desenvolvimento – são realmente a matéria original “primaria” da vida. O seu caráter desinteressado e a sua ineficácia na vida os conduzem às regiões da arte.Essas brincadeiras contêm a nostalgia dos sonhos e o caráter definitivo das ultimas coisas. As suas realizações vitais “maduras”, são uma horrível degeneração oficial. A MULHER COM O BERÇO MECÂNICO torna-se o objeto de um jogo cruel no qual participa toda a classe: ela é perseguida, capturada e colocada em uma máquina singular, que no catálogo figura como uma MÁQUINA DE FAMILHA. As suas funções não são por nada ambíguas. É necessário notar, assim de passagem, que neste teatro as funções mentais e biológicas são insolitamente “objetualizadas” em modo escandaloso. Com esta função são usados diversos tipos de “Máquinas”, freqüentemente primitivas, de modo bastante infantil, com um valor técnico mínimo, mas de grande carga fantástica.A “MÁQUINA DA FAMILHA” é manobrada à mão e provoca o abrir-se e fechar-se mecânico das pernas do culpado. É claro que não existe nenhuma dúvida de que este é o ritual do fazer o nascimento. A MULHER DA LIMPEZA/MORTE carrega um BERÇO MECÂNICO que é muito parecido com um caixão. Como conseqüência, bastante compreensível, o BERÇO MECÂNICO (literalmente, desta vez) faz oscilar duas bolas de madeira provocando um rumor seco e nervoso. É esta a brincadeira brutal da MULHER DA LIMPEZA... nascimento e morte – dois sistemas complementares. (Todos estes acontecimentos são ligados de maneira obscura e emblemática com os acontecimentos tratados no drama).Não surpreende, então, que a própria MULHER COM O BERÇO MECÂNICO, submetida a outras estranhas “cerimônias” - enquanto lhe CÓSPEM em cima quase ritualmente e a cobrem com lixaradas – canta uma NINA-NANA que é um grito desesperado...
ADVERTÊNCIA
As figuras da CLASSE MORTA são indivíduos ambíguos.Como se tivessem sido despedaçados e depois re-colados junto com vários pedaços e fragmentos sobrevividos da infância, com os destinos experimentados na própria vida passada (não sempre respeitáveis), com os seus sonhos e as suas paixões, estes que continuam a desintegrar-se e a transformar-se neste elemento e movimento teatral, fazendo estrada sem trégua em direção à própria forma final, que se esfria de modo veloz e irrevogável e que é destinada a conter toda a sua felicidade e todo o seu sofrimento: A INTEIRA MEMÓRIA DA CLASSE MORTA. Os preparativos finais para o GRANDE JOGO com o NADA são feitos com rapidez. Posto que tudo isto acontece em teatro, os atores da CLASSE MORTA observam fielmente as regras do ritual dramático, assumem papéis em qualquer drama, mas não atribuem a esse muita importância, recitam automaticamente, por hábito; temos até a impressão de que eles se recusam obstinadamente a reconhecer que estão em tais papéis, como se estivessem apenas repetindo as frases e as ações de um outro, afastando-os de si com facilidade e sem escrúpulos; estas regras são infringidas periodicamente como se fossem mal entendidas; existem alguns vazios preocupantes e faltam muitos pedaços; devemos confiar nas hipóteses e na intuição.Talvez não interpretem nenhum drama; e mesmo que estejam tentando criar alguma coisa, de qualquer maneira não é muito importante diante do JOGO que de fato está sendo apresentado neste TEATRO DA MORTE!Esta criação de ilusões, esta improvisação negligente, esta superficialidade, estes fragmentos de frases, estas ações que se apagam, somente algumas intenções, toda esta mistificação, come se realmente interpretasse algum drama, esta “futilidade” – somente estas coisas nos induzem a pensar de estar vivendo esta experiência e o senso do GRANDE VAZIO e da fronteira além da MORTE.A seqüência da sèance da “Classe Morta” intitulada “Colisão com o Vazio” contém, sem ambigüidade, o núcleo teatral deste Grande Jogo.Seria injustificável pedantismo de bibliófilo tentar encontrar aqueles ausentes fragmentos necessários para um “conhecimento” completo da trama deste drama.Esse seria o sistema mais simples para destruir uma esfera importante que é aquela do SENTIR. Por esta razão é desaconselhável conhecer o conteúdo de “Tumor Cerebral” (Tumor Mosgowicz), um drama de S. I. Witkiewicz. É exatamente este o drama que nos serviu para os objetivos que descrevemos.
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